18 março 2011

Pensei em te dizer

Cortei os pulsos e deixei o sangue escorrer dentro do copo de vidro.
Estava quente e emplastado numa cor vermelha escura como o coração que oferecia as ofertas para o dia dos namorados no shopping Center. O dia amanheceu e ainda não morri, nem de medo, nem de solidão, nem de amor.
O estado paranóico que instiga minha mente a pensar em partir minha própria cabeça ao meio não é capaz de sucumbir ao impulso de apertar o gatilho.
Já comprei minha passagem para o inferno.
Cinco cartelas inteiras de remédios para esquecer quem sou poderiam facilitar muito a percepção de que o trilho chegou ao fim. Talvez seja a hora de escrever uma cartinha de despedida e imaginar quem serão os convidados para o meu enterro.
Você vai chorar dois ou três dias e depois achará melhor que eu tenha partido sem deixar um recado com a voz embriagada no seu telefone celular.
Conte a todos quem eu fui e o que fiz e não se esqueça de dizer quem sou.
Cuidado ao vasculhar minhas coisas, meus segredos e minhas gavetas.
Entre meus livros tem anotações importantes, se achar conveniente pode vendê-los a um preço justo, aqueles que não interessam a ninguém doe para algum orfanato, para alguma igreja, para alguma escola, sei lá, não estarei mais preocupado em esconder o que tenho vivido na sua ausência.
O que me resta ainda de sangue no corpo escorre como a areia de uma ampulheta. Em pouco tempo vou desmaiar, apagar e provavelmente desaparecer desse mundo.
Não terei mais cobranças, gritos e nem as recordações de todas as vezes que senti culpa por estar apenas vivendo o que considerei importante, verdadeiro e leal a mim mesmo. Esse egoísmo evidente poderá servir para quando quiser falar mal de mim num momento de ódio.
O paradoxo desse instante entre a vida e a morte é perceber que não fui um bom filho, um bom pai e nem um bom companheiro, embora seja previsível que vocês venham a relembrar momentos divertidos, pensamentos inteligentes ou atitudes louváveis. É mais fácil sem dúvida nenhuma elogiar um morto.
A lâmina que usei para dar o talho na artéria que agora expele toda esta cor escarlate jaz sobre a pia do banheiro. O copo de vidro transbordou.
Sinto frio e começo a crer que não existe nada após este estágio e que todo aquele mistério de luzes e pessoas que aparecem para buscar as almas é só mais uma invenção para amenizar o medo do desconhecido. Talvez o fato de ter tido o privilégio de escolher meu próprio meio de debandar daqui é que pode ter me colocado de castigo para toda a eternidade... Não se admite nesse mundinho de hipocrisia e demagogia barata que alguém acione o botão de desconectar. Isso soa como covardia. Bulhufas, que diferença faz?
A última canção que escuto é o som da voz da minha filha cantarolando alguma melodia inocente. Diga a ela o quanto a amei.
Meu outro amado e querido filho dorme tranqüilo, dei-lhe um beijo na testa antes dessa partida e o louvei como a redenção do que pude fazer de melhor.
Por todos os julgamentos que passei, ninguém foi mais rigoroso do que eu mesmo no veredicto final.
A morte tem dentes amarelos, mas sorri com certo conforto.


- Por: Tico Sta Cruz

5 comentários:

  1. Muito muito bom. Ameii *-*
    Parabéns pelo post.
    Continue assim.

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  2. O texto é bem profundo, um pouco dark, mas a msg que ele passa é legal.

    http://www.profanofeminino.com/

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  3. Maravilhoso, com certeza.

    Tem selinho pra você lá no blog, passa lá pra conferir: http://paraisodoesmalte.blogspot.com/p/selos.html

    Um beijo linda.

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  4. Nossa, esse texto ta muuuito real. Eu me senti essa pessoa, enquanto lia parecia q eu ia me matar msm hahahhahaah está muito perfeito, prendeu totalmente minha atenção. As palavras, os sentimentos, a comparação... Está tudo na msm sintonia. Adorei!

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  5. texto legal, sentimentalista. cruel.

    beijoca

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