18 março 2011

Vermelho sangue


Passava da meia-noite. A madrugada entranhava pelos seus poros como nunca havia sentido. Sentada na poltrona rasgada que ficava de frente para a janela da sala, o vento a fazia imaginar coisas que ninguém entenderia. O segundo andar daquela espelunca nunca fora tão útil em termos de apreciação de paisagem. Passou um, passaram três, sete carros na rua. Decorou suas cores e gravou em pensamento o que passou em alta velocidade. Desejou ser como ele. Continuou mais dez minutos (cravados) sentada na velha poltrona. O vinho que abrira já estava pela metade; e a taça, com um mínimo quebradinho na borda, vazia. Encheu-a até a boca desprezando qualquer tipo de educação psicológica...Ninguém a estava vendo mesmo. Virou como água, desceu como vodca. Levantou, chutou as pantufas mofadas pelo ambiente do apartamento e direcionou-se até seu quarto. Vestiu um sobretudo preto por cima do pijama vermelho curto. Calçou uma bota também preta, de rodeios passados. Fez qualquer coisa na cara com um toco de lápis de olho e um resto de batom vermelho que restava na penteadeira infestada de cupins. Amarrou o cabelo pra cima e saiu, deixando para trás a poltrona, a garrafa e a taça. Desceu a escada que rangia, tentando em vão pisar de leve. Chegou, finalmente, à porta do prédio, com os vidros quebrados. Saiu andando devagar pela rua iluminada pelos postes. Não pronunciava palavra alguma desde que o relógio dera doze badaladas. Caminhava sentindo que havia feito péssima escolha da bota, que já apertava os pés. Ignorava a necessidade de ficar descalça. Ignorava o banho que não havia tomado. Ignorava-se. Andou por toda a rua que conhecia e, chegando à esquina, hesitou em continuar. Nunca havia parado. Nunca tinha medo. Mas essa madrugada a arrepiava tanto que teve o medo acumulado das noites que não teve. Um medo de não parar de sentir o que sentia, nem se amanhecesse. Depois parou e sentou, uns dois metros antes de chegar à esquina. Pela primeira vez, em anos, teve que parar pelo medo. Parou e teve medo. Parada teve medo. Abaixou a cabeça, sentada embaixo de um poste. Viu pingar gotas vermelhas de seu rosto. Por segundos apenas observou, depois foi procurar de onde vinham. Pingavam de seu lábio inferior. Lembrou-se da maldita taça quebrada. Colocou a mão na ferida, tentando estancar o sangue. Limpava com a gola do sobretudo. Fazia tudo sem falar. Nada. Ninguém. Só ela e as luzes da madrugada. Contou até dez, cinquenta, cem. No noventa e nove olhou para o lado da esquina. Esperava ver uma sombra qualquer, pelo menos para se sentir ameaçada ou acompanhada. Nem isso havia. Estava sozinha. Olhou para os pés doloridos, a boca sangrando e o nariz escorrendo. Ficou sentada a dois metros da esquina e a milhas da felicidade. Sozinha...

Bruna Montes Werneck

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