18 junho 2014

Enquanto isso na recepção

_ Bom dia! Fica a vontade. Aceita um café?
Como uma agulha, seus olhos perfuraram os meus, suas palavras soaram como um grito abafado ao pé do ouvido e deixando eriçados os pelos do corpo inteiro. Sua voz aveludada tinha uma sintonia perfeita com seus lábios finos e delineados. Me ofereceu um café e no mesmo instante desejei seu coração como acompanhamento. Naquele momento perdi o chão e qualquer noção de raciocínio que poderia ter. Dizem que homens ficam burros perto de mulheres bonitas, não sabia que essa afirmação idiota poderia ser tão verídica. 
Pensei ter entrado no lugar errado, mas apenas tinha mudado a recepcionista. Ia me sentar na poltrona para esperar minha vez na consulta, mas paralisei no balcão pra poder dizer meu nome e avisar o doutor que eu havia chegado, não saiu nada.
Ela piscou duas vezes antes de sorrir com os dentes brancos e um hálito tão doce quanto parecia. Filha da Puta! Tão encantadora que me fez esquecer o motivo por eu estar ali. Fez esquecer que o motivo de estar ali é porque a meses atrás, antes daqueles inúmeros remédios controlados, eu estava quebrando pratos na parede de casa, expulsando minha esposa adultera a gritos assustadores, bebendo uísque vagabundo e xingando a gorda da mãe dela. Ela me fez esquecer que ao redor só tinha gente maluca, assim como eu, que não tinham capacidade mental de se recuperar de uma decepção sozinhas. Ela roubou minha lucidez durante dez turbulentos segundos. 
Logo eu, um perturbado, zé ninguém, predestinado a carregar na lembrança aquele olhar desconcertante e sorriso viciante dentro da memória por mais um sete anos. 
Aquela moça era o amor da minha vida. Por dentro eu gritava que a amava, por fora, eu me vi sem voz nem pra dizer não ou para mandá-la para a algum lugar bem feio. Paralisado, me vi atordoado, esqueci de respirar por alguns segundos viajando no céu daquele decote azul.
Ela desviou o olhar, via-se em uma situação embaraçosa. Um tarado a olhá-la fixamente. Ela colocou as ondas douradas atrás do cabelo e fechou o colete do uniforme do consultório e quando ia perguntar mais uma vez sobre aquele maldito café ou sei lá o que ia dizer, uma voz grossa e firme chama meu nome.
Foi um alívio. Confesso que odeio tudo ao redor na sala daquele doutor sem graça, mas foi um alívio. Não conseguia parar de pensar naqueles olhos carregados de maquiagem e pensei em chamá-la para tomar um café depois daquela consulta esquisita. Quando sai da sala ela não estava mais lá. Acho que sou um azarado desgraçado. Que merda de café, que merda de amores de cinco minutos. Me apaixonei muito rápido, mas vou chegar mais rápido ainda na porta do bar. Foda-se aquele maldito café, eu prefiro cerveja.

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