08 julho 2014

Só mais uma maluca

Ela olhou-se diante do espelho enquanto cantava e dançava uma canção que passava no rádio. Notou que nem gostava daquela música, mas interpretava sorridente o refrão que acabara de decorar. Deixava rastro de uma energia incandescente que acendia aquela casa fria e escura.
A coitada estava vivendo uma ilusão. Esqueceu, naquele momento de euforia, que seu coração tinha sido triturado, mastigado, digerido e jogado ao esgoto, um coração submetido a nada. A pobrezinha esquecera das cicatrizes que tatuou seu corpo, das perdas e dos danos. Iludida. Iludia-se com tão pouco. Seus planos frustrados, as palavras que não foram cumpridas, até mesmo as não ditas - que doíam com mesma força - foram ficando pra trás, nos passos de dança desengonçados. 
Antes iludida, do que acompanhada dos fantasmas do passado. Ela não ligava para mais nada. Feliz. Louca. Colocou seu melhor vestido, só para afrontar o inverno, que ela não ia deixar chegar. Cabelos soltos e desgrenhados, rosto e alma lavados. Serena e composta de uma felicidade peculiar e sincera. Um sorriso que pertencia ao mundo dela, o motivo talvez, possa ser porque pela primeira vez, ela  não precisa de mais nada, além de si própria, por completa, para ser completamente feliz. 
Ela sabia que encontraria dificuldades no meio da estrada de terra, e que a levaria a lugares que talvez não se adaptasse, mas diante disso ela apenas respira fundo e enfrenta.
Ela sorriria para tudo de hoje em diante. Não se martirizava ou se culpava, apenas seguia em frente, cambaleando ou não.

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